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O cheiro de Deus

Foto do escritor: Claudio Correa Monteiro
Claudio Correa Monteiro
23 de mar. de 2025
2 min de leitura



Eu vou falar do livro O Cheiro de Deus, cujo título o autor deve ao frei Beto, escrito por Roberto Drummond, lançado pela editora Objetiva em 2001. O livro é considerado a culminância do projeto estético-literário do autor. A história é inspirada na árvore genealógica do autor . O livro conta a história de uma dinastia inquieta e poderosa, com Inácia Micaela como matriarca. A narrativa de Drummond conduz o leitor para uma saga. A metáfora do cheiro de Deus sintetiza todas as linhas desenvolvidas anteriormente, ao se configurar como fator cosmológico do romance. Drummond aprendeu com Ivan Turguenevi e Thomas Mann que "se você tem uma família, não precisa inventar outra, é só escrever sobre ela". Em Hilda Furacão, o autor, seguindo a máxima dos escritores europeus, fez-se de narrador e colocou em cena o seu clã. O romance O CHEIRO DE DEUS representa a culminância do projeto estético-literário de Roberto Drummond. O autor concebe um épico capaz de mimetizar, numa perspectiva moderna, a narrativa clássica, e preservar a origem popular e contemporânea de sua literatura. Dois eixos norteiam aqui a abordagem da obra: um, dedicado à fonte clássica e mitológica do romance, o outro, atento às intervenções da tradição popular com que o paradigma erudito se reconfigura. O primeiro capítulo se dedica à análise das imagens presentes no romance, a partir de correntes variadas dos estudos acerca do mito, e das negociações do paradigma romanesco com os procedimentos de composição do épico, sistematizados por Emil Staiger. O eixo dedicado ao cânone termina com a reflexão filosófico-estético das formas e dos gêneros, baseada nas idéias de Friedrich Nietzsche e de Mikhail Bakhtin. O segundo capítulo prossegue com a investigação do veio popular, introduzido no sistema romanesco através da referência a outras linguagens artísticas, do riso e da metáfora olfativa, presente no título. Vistas em separado, 1- As referências estéticas a outras formas de arte permitem compreender a ligação entre a ingenuidade das representações de Roberto Drummond e a arte naïf, a irresistível tendência ao sentimentalismo, aos atos derramados e o melodrama, o conceito de "fórmulas de PÁTHOS" (Aby Warburg) e a força do imaginário popular no romance. 2- As formas do riso, com ênfase na teoria freudiana do chiste, revelam as estratégias do discurso empenhado em sabotar suas interdições. 3- A metáfora do cheiro de Deus sintetiza todas as linhas desenvolvidas anteriormente, ao se configurar como fator cosmológico do romance. Assim, a inspiração clássica e épica, perpassada pelo riso e por expressões de arte popular, gera mais do que uma obra exótica, irreverente e naïf, como as que peculiarizam o estilo do autor: torna o romance um projeto nada ingênuo de construção ficcional, gerenciado pela metáfora olfativa. Esta dissertação, portanto, investiga como tais eixos antitéticos e complementares acionam fórmulas tradicionais e atuais, frequentando tanto as altas esferas evanescentes, divinas e literárias, quanto o HABITUS da descontração e superficialidade contemporâneas, na mesma medida em que a simples e poderosa metáfora do Cheiro de Deus traduz a convergência existente entre eles.


 
 
 

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